Municipal em Família – A história de quem história com o Teatro Municipal

            “Descíamos 52 degraus e estávamos dentro do palco”. Esse relato parece de um artista que relembra minutos antes de sua apresentação. Mas não é nada disso. O depoimento é dado pela professora de artes e música, Rosa Corvino.

            Aos seus 79 anos, ela relembra com saudades do tempo em que viveu no Teatro Municipal. A família de Rosa tem tradição e história dentro deste teatro, que foi inaugurado em 1911, causando o primeiro congestionamento da cidade de São Paulo.

            Tudo começou por volta de 1898, quando o avô de Rosa veio ao Brasil em lua de mel. E por aqui ficou. Além da situação na Itália não estar boa, seu avô logo conseguiu um trabalho. Artesão que esculpia mármore, Corvino foi responsável por todo trabalho nos mármores existentes no Teatro Municipal.

            Ele havia sido convidado por Ramos de Azevedo e depois que a obra ficou pronta, o homem de confiança foi convidado a tomar conta do local. “Depois o papai cresceu no teatro, também nasceu aí e depois meu avô faleceu e meu pai ficou no lugar dele. Ele ficou como conservador até morrer”, conta Rosa. Seu pai, Salvador Corvino, morreu aos 70 anos. A vida de Rosa dentro do teatro durou até seus 25 anos, quando foi para a Europa estudar arte.

            Quando a mudança aconteceu, ela já havia vivido muitas histórias. A tradição familiar e a ligação com o teatro não acabaram com a mudança. A irmã de Rosa trabalhou na área administrativa e ela fez monitorias gratuitas durante cerca de quatro anos e meio.

            Depois desse período, Rosa foi afastada da função. Ela indigna-se por não poder continuar fazendo o que sempre fez com muito amor. Atualmente, tem apenas dois horários de visitação aos sábados, mas que segundo ela não são suficientes. “Não conto nem a metade porque não dá tempo de contar como foi a inauguração do teatro, a semana de arte moderna, muitos fatos curiosos também que tivemos aqui dentro, que vivenciei. E fatos interessantes sobre coisas que aconteceram”, entristece-se.

Força e Paixão

            A força de vontade, a paixão demonstrada nos relatos e o conhecimento sobre arte e o Teatro Municipal encantam a todos que passam nas monitorias feitas pela senhora de cabelos brancos, bem vestida, óculos de aros grandes e dourados e jóias. E não é apenas encantamento que tomam os visitantes.

            Eles também se sensibilizam com a história de quem viveu no teatro e hoje tem hora marcada para entrar e sair do local em que nasceu. Prova disso é o círculo que fazem em volta após cada visitação para saber um pouco mais sobre a situação da professora e tentar ajudá-la de alguma maneira.

            É o que confirma Camila Franco, freqüentadora do Municipal. “Conheci a professora na fila do teatro”, relembra. “Ela protestava com os funcionários do teatro e em seguida, ela convidou todos que estavam na fila para participar da visitação. Eu nem sabia direito do que se tratava, mas era nítido que os funcionários faziam pouco caso dela”. E completa, “me apaixonei pela história e por ela. Hoje não consigo imaginar o teatro sem a professora Rosa. Ela é como se fosse a alma daquele ‘Templo Sagrado’”.

            A artista plástica Ângela Becker, 55, também se encantou. Ela conta que foi o amor manifestado por Rosa a cada detalhe da história e do teatro que a comoveu. E reitera que ela dá um suporte pessoal a tudo o que conta do teatro porque cresceu ali. E finaliza dizendo que Rosa é um monumento vivo.

            Questionada sobre a situação da professora Rosa e da monitoria do Teatro Municipal, a diretora Solange Natacci da Rocha primeiramente questionou à reportagem sobre o interesse e depois não mais nos atendeu. A Secretaria de Cultura, órgão responsável pelo local, também não atendeu à reportagem para se posicionar a respeito.

Atualmente, Vera, que faz parte da Secretaria de Turismo do Município de São Paulo, realiza as monitorias de terça a quinta-feira, das 11h às 14h.

Rosa aguarda uma oportunidade para fazer a única coisa que hoje lhe dá prazer: o histórico dentro do teatro. Entre os planos da professora está uma exposição de fotos e documentos que ela colecionou durante muitos anos. Algumas peças faziam parte do arquivo de seu pai. “Eu tenho quase mil fotografias de todos os artistas que passaram pelo teatro” calcula. “Até de Caruso, que eu não conheci, mas isso é um acervo também do meu pai porque ele guardou e todas as fotografias são assinadas”, completa.

            Além disso, a monitora começou a fazer um livro sobre o histórico e sua vivência no Municipal. Mas apesar de uma boa parte já escrita, o projeto se encontra parado. Ela explicou que só retomará o projeto quando voltar a realizar suas monitorias regularmente.

 

 

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